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LUIZ CARLOS MACHADO

machado.lc@bol.com.br

"Algo engraçado aconteceu no reino do Libras (Uma fábula sem moral)", de Luiz Carlos Machado



Por que o Libras e não as Libras? Pelo seguinte: há muito antigamente era chamado pomposamente de Reino Unido de Libras, até que um Luminar nativo, certo dia, ergueu a voz e protestou:

-Reino Unido? Unido? O quê com o quê?

Outro Luminar argumentou que, por tratar-se de um reino animal, aglutinava várias espécies; daí, provavelmente, o Unido.

-Tolice! - Bradou o primeiro Luminar - Acaso existe um reino das minhocas? Um reino dos elefantes? Um reino dos morcegos?

-Bem... - Embaraçou-se o segundo Luminar.

-Então, de hoje em diante seremos apenas o Reino de Libras. Sou íntimo do Rei e estou certo que ele concordará comigo.

Assim, de uso em uso, a voz corrente referia-se a o Reino de Libras até, com o tempo, dizer simplesmente o Libras. E esta forma permaneceu até os tempos atuais.

Mas a história propriamente dita começa apenas agora.


Deu-se que morreu o Rei Leão CCCIV. Em realidade, não havia uma certeza absoluta de que aquele monarca seria de fato o 304º Rei Leão na história do Libras, visto que todos, mas todos mesmo, todos os reis que haviam reinado sobre o Libras pertenciam à mesma dinastia leonina. Desta forma, muito antes do Rei Leão I, existiram outros reis leões, pois alguma lei perdida nos tempos imemoriais determinara que seria o leão o rei dos animais.

Voltando ao que interessa, morreu o Rei e não deixou herdeiros. Oficialmente, dizia-se que ele era estéril. à boca pequena, no entanto, corriam certas histórias quanto à real sexualidade do extinto monarca, envolvendo, inclusive, um certo tigre bengali, o qual exercera notável influência durante o seu reinado. De qualquer forma, Luminares de então decidiram que a atual companheira de Leão CCCIV (companheira de fachada, juravam os maledicentes de plantão) teria uma espécie de reinado-tampão, pois a ideia, revolucionária, era que, dali em diante, os próprios animais escolheriam o seu rei absoluto.

Como era de se prever, foi um alvoroço geral. Logo começaram a se formar grupos (partidos?), cada espécie disposta a defender os seus próprios interesses. Aparentemente, os felinos, por uma questão histórica, formariam o grupo mais forte e, como candidato natural, pensou-se no Tigre. Por parte dos paquidermes, sem dúvida o Elefante poderia ter chance. Entre os símios, a coisa se apresentou difícil, dada a enorme variação da espécie, mas o Gorila e o Chimpanzé, ambos muito populares, eram nomes que não deveriam ser esquecidos. E vieram os equídeos, os suínos, os ovinos, os caprinos, os galináceos, os cervídeos e por aí afora.

Em meio a tantas articulações, surgiu um problema. A Leoa, viúva do falecido, imbuiu-se do seu papel de soberana e não se dispôs a entregar o trono tão facilmente. Com o apoio de alguns leões inconformados e, sobretudo, de um interesseiro Leopardo, começou a ditar leis e regras que atingiam principalmente a Elite Animal. Ora, os reis do Libras, historicamente, apenas reinavam, jamais governavam. Não era esta a sua função. E vinha agora a Dona Leoa se meter a dar ordens! A reação não tardou e os Luminares se reuniram visando apressar a campanha para escolha do novo soberano e arquitetar um golpe que destituísse a incômoda Rainha. Neste sentido, trataram de infiltrar entre os súditos figuras anônimas encarregadas de disseminar ideias como, por exemplo, do quanto absurdo era um reino ser dirigido por uma fêmea! Nunca, na história do Libras, se vira tal despautério. E mais: constava que a Rainha Leoa estaria traçando planos para privilegiar na Corte alguns dos filhos, frutos de cruzamentos anteriores com sabia-se lá quantos leões plebeus. Então, o reino corria o perigo de ver perpetuar-se a posse leonina do trono.

Deu certo. Logo, aqui e ali, começaram a surgir indícios de descontentamento que, insuflados pelos Luminares, não tardaram a se transformar em clamor quase que geral. A Rainha Leoa que, a bem da verdade, nunca fora muito popular, viu-se acuada, mas relutava em renunciar. O golpe de misericórdia veio com o boato de que ela e o fiel Leopardo seriam mais do que apenas bons amigos, o que poderia resultar na geração de um híbrido que, no futuro, arriscaria subir ao trono do Libras. Leoa não renunciou, mas foi destituída. Os Luminares formaram uma regência provisória que dirigiria o reino até a escolha do novo soberano.

Como não se pode esperar elegância quando o poder está em jogo (sim, porque o rei podia não governar, mas que tinha poder, lá isto tinha), os disputantes não poupavam os adversários: se o candidato não tivesse um ponto fraco real, inventava-se. Por exemplo: entre os cervídeos despontou o Veado, com seu jeito sereno, educado, embora fosse notório que, quando necessário , não hesitava em demonstrar a sua disposição para a beligerância. Pois bem, os opositores puseram na cabeça do eleitorado que, caso subisse ao trono, tal candidato instalaria no reino o gosto pela veadagem. Foi o suficiente para que o nível de rejeição ao Veado fosse às alturas. Do outro favorito, o Galo, falou-se que, caso vencesse, Libras se tornaria o reino da galinhagem. Resultado: a popularidade do Galo cresceu!

Estabeleceu-se que nenhum leão poderia se apresentar como postulante ao cargo. Talvez num futuro muito, muito distante... O Tigre, um dos primeiros favoritos, foi devidamente enfraquecido quando teve seu nome ligado ao do primo, aquele de Bengala, de passado suspeito. Do Chimpanzé, um dos dois representantes dos símios - o outro era o Gorila - foi alardeado o seu caráter excessivamente histriônico e irreverente, além dos evidentes maus modos quando em público. Do Bode, candidato dos ovinos ao lado do Carneiro, evidenciou-se o lendário desconforto odorífero que causava às narinas mais sensíveis. Do Porco, da ala dos suínos, seus nada ortodoxos hábitos de higiene. Do Elefante, disputante pelos paquidermes, o porte por demais avantajado e a tendência a se destrambelhar e derrubar tudo o que se lhe punha à frente em determinadas situações. Do Lobo, salientou-se a má fama que o precedia. À Raposa aconselhou-se que retirasse a candidatura; por sua natureza, seria mais útil atuando nos bastidores.

Estavam impedidos de se candidatar - e de votar -, pelas razões as mais diversas, os animais marinhos, os insetos, os batráquios, os ofídios e as aves voadoras, principalmente as de rapina (bem que o Urubu tentou, mas foi recusado logo de saída), os anfíbios e os roedores.

Assim, o número de candidatos a Rei do Libras foi se afunilando até chegar aos seguintes: O Galo, o Gorila, o Urso (o único aceito entre os caninos, mesmo levando-se em conta ser ele um notório brutamontes), o Cavalo, representando os equídeos. o Carneiro e, com pouquíssimas possibilidades, o Tigre, único felino, pois o Leopardo sequer ousou apresentar candidatura.

Em campanha, cada qual valia-se dos seus atributos mais notórios para conquistar o eleitorado. O Gorila e o Urso faziam questão de, sob qualquer pretexto, exibir os físicos avantajados, cientes do quanto os machos são sensíveis ao poder aliado à força. O Tigre, por eu turno, confiava na própria beleza para conquistar o voto das fêmeas. O Galo não perdia a chance de se valer dos seus dotes canoros: mesmo que ninguém solicitasse, lá vinha ele entoar o mesmo canto que, pensava, fazia nascer o dia. O Cavalo gostava mesmo era de desfilar o trote elegante, em mostrar a habilidade saltando sobre as barreiras, embora, em certa entrevista coletiva, tenha literalmente perdido as estribeiras , desferindo certeiro coice na Raposa que, exercendo as funções de repórter, lhe fizera uma pergunta por ele considerada pouco pertinente. Por sorte, a pobre coitada não sofreu danos maiores e acabou desculpando o Cavalo pelo intempestivo gesto. E o Carneiro? Bem, este usou a própria imagem angelical visando atingir certa fatia do eleitorado: nas propagandas (os "santinhos") distribuídas por seus cabos eleitorais, abaixo do nome Carneiro, vinha sempre a frase Agnus Dei (Cordeiro de Deus). Como se vê, não eram poucas suas ambições; subentendia-se que o Carneiro viria simplesmente com a missão de tirar os pecados do mundo!

Plano de reinado, na verdade, ninguém apresentou. Falava-se, falava-se e nada de útil se dizia. Era sabido que promessas, se feitas, não seriam nem poderiam ser cumpridas pelo futuro rei, mas não custava dourar a pílula, certo? O Libras assistia o nascer de um novo sistema e justamente com alguns dos seus piores defeitos. As possíveis qualidades, esperava-se, viriam com o tempo.

Deu-se o pleito e o Carneiro foi o vencedor, seguido não de muito longe pelo Cavalo. Conforme o estabelecido, o reinado seria de cinco anos, ao fim dos quais seriam convocadas novas eleições. Sem reeleição nem herdeiros sucessórios. Ao Cavalo foi concedido o título de Vice-Rei, significando, apenas, que como segundo colocado no voto popular, em caso de falecimento ou impedimento de força maior do monarca, ele, o Cavalo, assumiria o trono, porém só até que se completassem os cinco anos preestabelecidos. Sim, seria-lhe permitido candidatar-se às eleições seguintes, visto que não se configurava um caso de reeleição.

Assim, a vida no Reino do Libras retomou o seu curso normal. E continuaria assim, não fosse um acontecimento bizarro que veio agitar os ânimos da Corte.

Estava a Coruja em um daqueles seus habituais voos noturnos quando pousou para descansar, sem o saber, exatamente na janela dos aposentos do Rei Carneiro. Era tarde e a ave, com sua visão extraordinária, viu que o monarca já se recolhera ao leito. Algo estranho, porém, chamou-lhe a atenção. Silenciosamente, como soem agir as corujas, voou para dentro do quarto, chegou perto do rei adormecido e... arrepiaram-se-lhe as penas! Tonta, quase esbarrou na parede ao sair pela janela e mergulhar na noite. O que deveria fazer? Empoleirada no galho de uma árvore, girava a cabeça em todas as direções, como se se sentisse perseguida. Assim ficou durante algum tempo até decidir-se. Alçou voo e retornou ao palácio. Pousou de janela em janela e, por fim, localizou o quarto de um Luminar que, por sorte, ainda se encontrava acordado. Ao ouvir o piar, fez um sinal para que a Coruja se aproximasse. Esta, nervosa, mal conseguia articular.

-O que aconteceu, minha amiga? Parece que você viu um fantasma! - Falou o Luminar.

-O Rei... O Rei... não é um carneiro... é um lobo!!!

O Luminar quase caiu para trás.

-O que você está dizendo, Dona Coruja?! Enlouqueceu?!

-Eu vi... Eu vi...

-Acalme-se! O que você viu?

-O Lobo, dormindo, deitado na cama... A pele de carneiro dobrada, num canto!...

O Luminar quedou-se durante longos minutos em silêncio, ele próprio agora em estado de choque. Depois, pensou em voz alta:

-Por isso ele sempre tranca a porta na hora de dormir...

Saiu pelos corredores do palácio, a Coruja seguindo-o, e foi batendo à porta de quarto em quarto, até reunir todos os Luminares. E pediu à Coruja, agora mais calma, que repetisse a sua história.

Foram enganados de forma vil pelo maldito Lobo! E não apenas eles, mas toda a Corte, todos os súditos! Peste de animal matreiro! E agora? Não podiam deixar tal farsa seguir adiante, ignorá-la. Desmascarar o Lobo? O que pensariam deles, Luminares que eram, principalmente os opositores? Urgia que tomassem uma atitude imediata, de preferência ainda naquela noite.

A solução veio da própria coruja, não por acaso considerada por muitos o símbolo da sabedoria.

-Podemos matar o Lobo e dizer que o Lobo matou o Rei Carneiro.

Os Luminares entreolharam-se, atônitos. Cada um parecendo perguntar ao outro: "Como você não pensou nisto antes?".

E traçaram o plano. A Coruja retornaria ao quarto do Rei, abriria (ia ser difícil fazê-lo com o bico, mas conseguiria) o trinco da porta e os Luminares entrariam sem fazer ruído. Assim foi feito. O Lobo nem chegou a se dar conta do que acontecia quando as punhaladas começaram a rasgar-lhe a pele, a perfurar-lhe as entranhas. Depois, com a ajuda de alguns membros da guarda, de confiança, levaram o cadáver para a floresta e lá o deixaram, junto ao disfarce com que o Lobo tão habilmente se fizera passar pelo Carneiro.

Quando o dia amanheceu, o reino recebeu a notícia da morte do Rei Carneiro, cruelmente devorado por um lobo que, burlando a vigilância da guarda real, adentrara o palácio, praticando o terrível regicídio. Felizmente, após intensa caçada, o assassino fora localizado e devidamente executado.

O Rei morreu! Viva o Rei!. O Cavalo foi entronizado com todas as honras e reinou do modo como se espera que reine um cavalo: certa dose de elegância, outra tanta de altaneira beleza e um bom número de coices distribuídos a torto e a direito.

E aqui termina esta parte da história, apenas a ilustração de como foi implantado um novo regime no Reino do Libras. Se deu certo ou se não deu, somente a História (com maiúscula) dirá. O episódio aqui narrado poderá gerar um fato no mínimo curioso: se por acaso, no futuro, um carneiro viver a subir ao trono do Libras, será ele chamado de Rei Carneiro II; isto sem que, na realidade, jamais tenha havido um Rei Carneiro I?

Ah, sim... A Coruja foi contemplada com um cargo importante na Corte. Diz-se até que, não demora, ela se torna a primeira fêmea Luminar. Sinal dos tempos! Mas ela merece.